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12.11.07

Nesta vida passamos por muitas vidas. ( 2ª edição )


Nas profissionais, antes da fundação das P.S.C. & Partners Progettazione Architetonica,
tive várias, trabalhando em escritórios de algumas das resplandescentes estrelas arquitetônicas paulistanas. Ou seja, carreguei muito piano, e de cauda, na coordenação e desenvolvimento de trabalhos, pilotando inquietas e sonhadoras equipes com braço firme, pulso forte e coração mole. Para os sempre presentes novatos ávidos de emoções, professoral dizia que os picos de taquicardia que eles buscavam em esportes radicais podiam ser conseguidos com mais segurança em uma prancheta, com vários projetos a serem desenvolvidos, prazos a cumprir, o administrativo cobrando faturamento e um arquiteto-coordenador, o chato de plantão, por perto.
A maioria das pessoas considera uma profissão super-poética. É, em aproximadamente 12,7% do tempo. No resto, está muito próxima da culinária : descascando infindáveis nabos e pepinos, cozinhando em banho-maria clientes ansiosos, defumando engenheiros obtusos, arrancando as vísceras de empreiteiros.

Mas existem passagens muito divertidas e agradáveis, uma delas foi o projeto da " Torre Pluralista ", exótica concepção do arquiteto/designer/artista Gaetano Pesce, italiano, que já trabalhou nuns 5 ou 6 cantos do mundo e que hoje desfila sua rica plumagem nos terreiros de NY. Ele andou ciscando também por aqui e conseguiu vender a idéia para uma grande construtora da época, que bancou o projeto e cedeu um belo terreno em Moema.
Esta obra só não foi construída graças à rebordose nacional armada por aquele ex-presidente que proclamava seu latejante saco roxo, mas que tinha o nariz no lugar errado e o cérebro anêmico.


A idéia era a seguinte : um prédio com 10 apartamentos duplex, onde cada um deles era projetado por um arquiteto. Inclusive a fachada de cada apartamento! Os andares seriam diferentes também por fora.
Para ficar de pé, uma situação sempre desejável, deveria ser respeitada a malha estrutural pré-definida : posições de pilares, vigas principais, escada e elevadores. Seguidas essas pré-condições e as limitações da legislação municipal, o delírio poderia ser total .
Foram então convidados para o projeto do primeiro edifício, seriam construídos dois, nove arquitetos de São Paulo ( por ordem alfabética, que não sou besta) :
Carlos Bratke, Eduardo de Almeida, Eduardo Longo ( a cobertura foi dele ), Marcos Acayaba, Miguel Juliano, Paulo Mendes da Rocha, Ricardo Julião, Roberto Loeb e Ruy Ohtake. Completando a equipe, do Rio, veio Paulo Casé. Para evitar formação de panelinhas, composições suspeitas e acordos espúrios entre os escolhidos, os andares foram sorteados.
Interessantes as reuniões prévias, com elegantes embates entre os de personalidade mais incisiva, buscando uma " ordenação" da coisa, quando a idéia era não ter ordenação nenhuma.
Foi uma rara oportunidade, comum só em concursos, de notar a multiplicidade de soluções espaciais para uma mesma questão.
A proposta tinha um aspecto a ser meditado, ela escancarava uma realidade, assumindo clara e físicamente que edifícios habitacionais jamais serão uma projeção das expectativas individuais de seus moradores. Um edifício, no fundo é um tipo de farsa já que não existem famílias iguais.

Abaixo a imagem do modelo do projeto da Torre Pluralista aqui de SP, gentilmente enviada pelo Arq. Eduardo Longo. Clique na imagem para uma ótima visualização das propostas.

38 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Peri,

me lembro bem do projeto, porque na época convivia mais com o arquiteto da cobertura. Lastimei não ter saído da maquete!
Se não me engano, em outros comentários sobre o mesmo projeto, vc teria dito: "por sorte não vingou"! Ou coisa parecida, que não entendi. Apesar de parecer uma favela empilhada, teria sido curioso ve-lo pronto.

peri s.c. disse...

Eduardo
Quem fez um post à respeito foi o Fernando Cals. Participei como associado e gerente do escritório de um dos arquitetos aí citados ( dos 10, trabalhei com 4 e fui aluno de um outro, conhecia razoavelmente bem a turminha ).
Tínhamos na época um consórcio com um desses arquitetos num grande e longo projeto.Portanto o segundo escalão, todos seniors, vividos, se divertiu muito com esse trabalho. Comentávamos muito e todos tínhamos dúvidas do resultado final construído, em relação à sua volumetria e impacto na paisagem. Achávamos que seria apelidado de " favelão-chic"
A arquitetura, quando vista como arte, tem um grande problema, as más soluções não podem ser escondidas, ficam lá por anos a fio, não podem ir para um depósito empoeirado ou o fundo de um armário.
O Pesce nunca conseguiu, ver construído esse seu conceito, apesar de ter tentado em vários países.Nunca foi para a frente.
Um ótimo exercício, que infelizmente não causou nenhuma discussão no meio, na época.

peri s.c. disse...

Eduardo
Complementando : também acho, seria curioso vê-lo pronto. A questão seria a vizinhança conviver com ele.

Um dia meu filho, pequeno ainda perguntou : pai, por que os prédios são tão iguais ? Bela questão.

e-grafia disse...

Os neoclassicistas iriam morre de inveja.
Isso sim seria uma porrada no mercado mono-arquitetônico dos incorporadores.

Adorei trabalhar neste projeto.

Quem vejo, no domingão, passeando com sua donzela, pelo Shopping Villa Lobos?

O engomadinho fazedor de maquetes de madeira.

peri s.c. disse...

E.
Que seria uma porrada seria,bem no "figo".
Já imaginou se virasse um sucesso "cult"-comercial ?



Conversou com ele? Ah, ah, conversei com ele uns tempos atrás. O little engomado abandonou as maquetes e agora diz que só faz lojas de altas grifes. como de praxe,divida por 4, subtraia 18 e chegaremos à conclusão que está fazendo mesinhas do Habibs.
Nas filiais da ZL.

anamoraes disse...

afiadinhos, hein??
Hehehe, pena que não dá pra ver direito nessa imagem, pois comecei a definir qual seria o andar de quem, mas resolvi não arriscar palpites, afinal não sou do ramo, mas conheço alguns deles...engomadinho, hihihi!

Marcio Gaspar disse...

e quando vêem paisagem parecida em diversas favelas, o comentário recorrente é de que 'pobre tem mau gosto mesmo'...

peri s.c. disse...

Ana
Nem eu lembro direito, o nosso era o 2º andar.
Você poderia dar palpite como potencial moradora.Ou como vizinha.

peri s.c. disse...

Ah, Marcio, solta lá uns arquitetos para ver a graça que ficaria.

Eduardo P.L. disse...

Peri,

obrigado pelas explicações. Concordo plenamente. Seria um risco, e como não foi, nunca se saberá!

Forte abraço

e-grafia disse...

Não tive vontade de ir conversar com ele.

Mas, agora lembrei, que ele tinha um rural reformada, supimpa, digna do Blig do Gomes.

peri s.c. disse...

Eduardo
A melhor parte é a "conversa" decorrente. O que será que o Eduardo Longo achou deste projeto ?

disse...

peri, deve ter sido uma experiência e tanto para os participantes!

peri s.c. disse...


Um processo meio estranho,diria mal-conduzido.
Duas reuniões prévias de trabalho, que participei, com todos os arquitetos e alguns membros de equipes deles, para entrega e explicação do que devia ser respeitado em termos estruturais e posição de escada e elevadores.
Aí foi divertido assistir algumas tentativas, como escrevi no texto, de dar uma certa "ordem" plástica ou volumétrica ao resultado final. Sem sucesso.
Depois cada um em seu escritório, sem trocas de informações, trabalhos entregues, um dia avisam que a maquete estava pronta. Conseguimos, porque pedimos, cópias xerox em A4, dos outros projetos, pelo menos para conhecer. Talvez tenha havido alguma apresentação formal, nunca soube.
Faltou uma rodada final, com todos os titulares para uma avalição geral do resultado. Um desperdício.
Na verdade o processo foi paralizado pelo caos em que entrou o país naquela época.

anna disse...

a façanha poderia chamar-se "solar frankestein" ou "maison frankenstein".

e havendo uma padoca em baixo, "nova frankestein.

peri s.c. disse...

Anna
Matou a pau.

A padoca, nos sobradinhos ( "germinados" ...) reformados do terreno vizinho.

GUGA ALAYON disse...

Queria ter participado...
Favela chic eu gosto de fazer. ahahah
abç

GUGA ALAYON disse...

Favela é feio, desculpe. Sub-moradia.

peri s.c. disse...

Guga

Um projeto ótimo :
- Não existiam clientes, ah, ah.
- Nem
pseudos-futurólogos-intérpretes das expectativas de prováveis clientes, ah ah.
- Nunca se falou em coisas tipo " espaço-gourmet", e outras empulhações ah, ah.
- Nem em " apartamento decorado pela conhecida desigener ...." ah, ah.
- Não haveria a chance do nome do paisagista aparecer mais que o dos arquitetos.
( ouvi uma história ótima esta semana : tem várias construtoras que hoje cobram dos arquitetos para que o nome deles seja citado nos folders e propagandas dos lançamentos, ah, ah. )
- Honorários honestos, uff.


Sobre-moradia, no caso.

longoeu disse...

olá peri
não ficou claro que a imagem acima é a do conceito, apresentado pelo C Pesce. posso enviar imagens? se achar seu email-ou pelo blog?
Tive a sorte de ficar com a cobertura e, procurando caracterizar o edifício como residencial, fiz uma "casa de fazenda" com telhas e grandes beirais; acho que não fez sucesso.
quanto ao almofadinha, dá uma pista, não identifiquei.
abraço. eu@eduardolongo.com

peri s.c. disse...

E. Longo,

Por favor, me envie o que voc~e tiver de material, que complemento o post, e-mail :
armazemperisc@terra.com.br

Eu achava que esta era uma maquete final, a única imagem que encontrei na net.
Lembro da sua solução, e estranhava esta diferença na maquete.
Não estive nas primeiras reuniões onde ele apresentou o conceito e não vi o material que eventualmente foi fornecido.

O almofadinha citado não era nenhum dos arquitetos, era um designer que fazia maquetes para o escritório.
obrigado e abraço

valter ferraz disse...

Peri, no começo do post vc enumera e bem as características dos egos do arquiteto. Sofrí como empreiteiro(do ar condicionado) de alguns companheiros teus. O bastante para querer distância deles. Sempore que apanhava uma obra e via o nome de um arquiteto para acompanhar a dita cuja, já me preparava para o pior. E, pimba! Não dava outra. Tínhamos problemas. Acho que o único lugar que não tive (muitos) problemas com aruqitetos foi aqui na blogosfera. Digo isso, com um certo receio. Sempre é tempo para se arranjar problemas. Ô raça!
(desculpe a brincadeira sem graça, mas a tua turma é fogo!) Já com engenheiros, não sei explicar porque a convivência sempre foi fácil efluía bem. Saberia me dizer?
Desculpe fugir ao tema principal do post, que é claro, era o projeto e seu conceito.
Bom feriadão,
Forte abraço

peri s.c. disse...

Valter

Assunto complexo. dá um papo de umas duas horas. Mas ... vamos lá :

Uma de minhas utopias é a de um paradisíaco mundo sem engenheiros ou empreiteiros.
Como isso anda meio difícil acontecer, relaxo, gozo e ganho algum dinheirinho coordenando e compatibilizando projetos. E acompanhando as obras, que é quando saio com meu capacete, minhas botas de segurança e minha mochila de maldades .

São atividades relativamente fáceis, se você for experiente e tiver um nível de ebulição acima de uns 300ºC.
Algumas frases usadas nesse processo, quando começam a pipocar as besteiras, são verdadeiros e tediosos bordões :
- "Você deu uma olhadinha no projeto de arquitetura ? ( sacou a maliciosa expressão " olhadinha"? Além da vontade, embutida na frase, de esganar seu interlocutor ? )"
- "Você chegou a abrir as folhas com os cortes e as fachadas ?"
- "Você sabia que isso está detalhado ?"
- "Você conferiu as medidas na obra ?"
- "Você acha que fazemos atas de reuniões só para gastar papel ?"
- "O gerente da obra não te entregou as revisões ?"
- "Por que você não avisou isso antes ?"
etc, etc, etc.

Meus colegas são fogo mesmo, alguns um inferno. Uns poucos a verdadeira encarnação do chefe lá de baixo. Mas longe de obras, são em geral, ótimas e adoráveis pessoas.

Abraço

Ricardo Soares disse...

cada vez que aqui passo mais fico fã... adoro o universo da arquitetura ... tenho vários amigos no meio e admiro vcs sobretudo por dominarem uma tecnica que desconheço
abs
ricardo
ps. acabei de fazer um perfil do alfredo pimenta pra uma revista (o cara que criou o radar tan tan e o aeroanta) e procurei o eduardo longo num telefone que só caía num fax... a matéria ficou sem o longo e hj me deparo com o e-mail do caboclo aqui ... veja só!!!

peri s.c. disse...

Ricardo
Obrigado.Em que revista vai sair o perfil ? Frequentei muito o Radar Tan Tan, bons tempos.
abraço

ery roberto disse...

Peri, parecia uma Babel desde sua concepção até a ida ao "beleléu" sem ao menos ter saído do papel. Coincidentemente parecia bem com a cara que o Brasil estava tomando na época da "rebordose", ou seja, uma zona total. Se bem que hoje só mudou o cafetão. Grato por tua visita, meu caro. Abração.

peri s.c. disse...

Ery
Só que nesta Babel aí todos falavam português.
Grato idem.
abraço

Rebel Alliance disse...

deveras genial...

peri s.c. disse...

Rebel
Obrigado pela visita

Adelino disse...

Peri, lindo depoimento.
É incrível como você consegue unir duas grandes qualidades: um profissional competente, sabe do fala, e ainda por cima é escriba de primeira linha.
Grande abraço

valter ferraz disse...

Peri, voce e o Lord me deram um post. Dediquei aos dois amigos. Passe por lá, vai?
Abraço forte

peri s.c. disse...

Adelino
agradeço imensamente seu comentário,
enorme incentivo para continuar me divertindo por aqui e se diverte vocês, melhor ainda.
Grande abraço

peri s.c. disse...

Valter
Já vi , legal que forneceu material básico para seu texto. Blogs se conectando.
abração

Lord Broken Pottery disse...

Peri,
Nunca comentei com você, mas a maioria dos meus amigos é formada por arquitetos. Alguns deles devem ser seus conhecidos: Paulo Sergio Del Negro (Teto), Massimo Persichetti, Vasco Caldeira, Cecilia Parlatto, Douglas Malcon Calder, Nabil (não precisa de sobrenome), José Roberto Sadeck. O Teto trabalhou com o Decio Tozzi e cheguei a conhecê-lo, bem com ao irmão Cláudio. Éramos todos freqüentadores, em nossa juventude, do bar Jollys, ali pertinho do Riviera (que já fechou), no fim da Paulista, olhando para a Rebouças. Escrevi sobre o Chico Baffa, arquiteto que trabalhou com o Decio, que gostava de fazer tricô enquanto conversávamos e bebíamos, para desespero do português, dono do botequim, que temia pela reputação da casa. Éramos conhecidos como a turma do fecha bar, já que só íamos embora quando o bar fechava. Boemia? Aqui me tens de regresso.
Abração

peri s.c. disse...

Lord
Bom retorno à boêmia, lugar de onde nunca deveríamos ter saído, poderíamos ter iniciado os filhos desde cedo nas práticas noturnas.
Dessa moçada que você citou só conheço, à princípio, o Nabil, que era de uma turma um ano posterior à minha. The Tozzi brothers foram nossos professores, finésimo o trabalho arquitetônico do Décio. Não se fazem arquitetos, ou talvez arquiteturas como antigamente.

david santos disse...

Por favor!
Ajuda a que se faça Justiça a Flávia. Se és um ser com sentimentos, ajuda!
Eu jamais invadirei teu blogue, garanto! Mas ajuda.
Repara bem: eu, tu, seja quem for, tem nosso pai, nossa mãe, nosso irmão ou irmã, ao longo de 10 anos em coma, que vida será a nossa?
Se não tivermos a solidariedade de alguém com sentimentos, que será de nós?

TEMPO SEM VENTO

Ah, maldito! Tempo,
Que me vais matando,
Com o tempo.
A mim, que não me vendi.
Se fosses como o vento,
Que vai passando,
Mas vendo,
Mostrava-te o que já vi.

Mas tu não queres ver,
Eu sei!
Contudo, vais ferindo
E remoendo,
Como quem sabe morder,
Mas ainda não acabei
Nem de ti estou fugindo,
Atrás dos que vão correndo.

Se é isso que tu queres,
Ir matando,
Escondendo e abafando,
Não fazendo como o vento:
Poder fazer e não veres
Aqueles que vais levando,
Mas a mim? Nem com o tempo!

David Santos

Fernando disse...

Oi, Peri,
até que na imagem do Longo, a proposta fica mais "palatável".
Até acredito que, como proposta, balizados alguns limites -"ah, assim não dá! Castra-se a liberdade cde criação..."- poderia dar um bom "caldo".
Lembro daquele celébre edificio japonês, das não-sei-quantas-janelas, cada uma diferente da outra, que apareceu em tudo que era revista de Arquitetura, anos 80, suponho.
Pessoalmente, eu achei uma bosta, mas...virou "cult", oras!
abração
fernando cals

peri s.c. disse...

Fernando
este projeto aí poderia pelo menos gerar alguma polêmica nas revistas de arquitetura, mas como elas não gostam de polêmicas, morreu antes da praia.
abraço